Repensando a identidade nacional no Brasil de hoje

*Ensaio produzido para a conclusão da disciplina Agenda de Pesquisa, pós-graduação em Estudos Brasileiros, Escola de Sociologia e Política de São Paulo | FESPSP, dez. 2019

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes dos restaurantes noturnos (…)
Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites (…)
Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos…
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

Hino Nacional, Carlos Drummond de Andrade

Em Bacurau, o mais recente trabalho audiovisual dos diretores Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, lançado oficialmente em agosto de 2019, há muitas camadas de Brasil. Uma das tantas cenas que ficam vivas na memória do espectador se desenrola durante um diálogo entre brasileiros do sudeste (interpretados pelos atores Karine Teles e Antônio Saboia) e estrangeiros na iminência de exterminar o pequeno povoado do sertão pernambucano. Questionados se não se importavam de ter sua gente morta, a carioca e o paulista logo enfatizam que não são como os nordestinos dali. O distúrbio de autoimagem é rapidamente ridicularizado pelos estrangeiros, afinal, para o olhar imperialista, é tudo parte da mesma escória periférica do mundo.

Como descreve Ismail Xavier (2011), o cinema, embora não seja a experiência central da cultura de massa no Brasil, é poderoso na produção de imaginário e de capital simbólico. Pode ser também retrato de aspectos de sua contemporaneidade. A cena descrita acima alegoriza a histórica rivalidade entre o sul e o norte do país, mas também pode ser entendida como uma metáfora do país que se desenha na atualidade. É um Brasil que, diante do espelho, não se reconhece. E começa forçadamente a superar o bovarismo, descrito pelas autoras Lilia Schwarcz e Heloísa Starling (2015) como um singular mecanismo de evasão coletiva, que nos permite recusar o país real e imaginar um Brasil diferente, uma vez que esse não nos satisfaz e nos sentimos impotentes para modifica-lo.

Nos últimos anos, e cada vez mais, uma intensa disputa de narrativas -especialmente nos campos da política e da cultura, e aceleradas pela capacidade de mobilização das mídias sociais de vozes antes caladas — está minando alguns conceitos-chave da nossa fabricada identidade nacional. Desde os inesquecíveis 7X1, o país do futebol “alegre, ousado e bonito” passou a ser definido em campo como apático e sem personalidade. O território de todos os povos e credos vê seu limite se delinear com a força da moralização seletiva pregada pelo movimento neopentecostal. O boêmio e o malandro são expurgados pelo chamado “cidadão do bem”.

O Brasil de natureza abundante, farta, generosa é o mesmo que continua condenando diariamente os povos originários, os poucos que sobraram, à cruel extinção. E o mesmo que assistiu atônito, em agosto de 2019, a Amazônia bater recorde de focos de incêndio — no governo de Jair Bolsonaro, o número de queimadas triplicou em relação ao ano anterior, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe). Enfim, o país da harmonia, do samba, do Carnaval se arma de ódio e se fragmenta sob a batuta de um presidente autoritário que governa apenas para os seus.

Enquanto isso, as mulheres se organizam cada vez mais para se libertarem das amarras do histórico patriarcado. As mulheres negras, em especial, não mais aceitam a hipersexualização histórica de seus corpos. O movimento negro, aliás, esfrega goela abaixo os números vergonhosos da desigualdade e enterra de vez a velha máxima da democracia racial. E por falar em democracia, desde 2016 que não sabemos bem definir o que é isso. Será que um dia soubemos?

Quem somos nós? Como identidades, embora abstratas, são moldadas a partir de vivências cotidianas, as tensões nos campos econômico, político e social da vida nos obrigam a repensar construções sociais bem assentadas. Hoje, reviramos o acervo de nosso senso comum e não encontramos mais ancoragem na realidade experienciada. O Brasil de brasileiros forjados na violência e orientados ideologicamente pela meritocracia — noção do senso comum de que “vencem” na vida os mais esforçados, os mais trabalhadores, os mais inteligentes — anda com dificuldades de criar laços com a diversidade que o compõe.

Como descreve Ruben George Oliven (2011), é o estado brasileiro quem toma para si a tarefa de construção de uma identidade nacional. Primeiro com Getúlio Vargas nos anos 30, que apoiado no Movimento Modernista usou os recém-criados Ministérios da Educação e da Cultura para construir e disseminar o sentimento de pertencer ao Brasil — a tal da brasilidade. Capturadas pela ditatura militar (1964–1984), a cultura de massas, com a popularização da televisão e os incentivos à Indústria Cinematográfica, serviu ao nacionalismo militar e sua busca por integração nacional.

Três décadas depois da redemocratização, o Brasil de hoje assiste ao desmonte de importantes pastas executivas. Não bastasse o estrangulamento do financiamento destinado à Educação, vemos surgir das entranhas reacionárias da sociedade o movimento Escola sem Partido, com bandeiras que combatem diversidade, equidade e direitos humanos, sem contar o combate ao “marxismo doutrinador”, conceito cunhado por aqueles que pouco conhecem da História.

A cultura é a que mais agoniza. O Ministério foi reduzido à secretaria, anexada primeiro à pasta da Cidadania e depois do Turismo. Secretários responsáveis pela promoção da diversidade, pelo incentivo à cultura, pela economia criativa e pelo fomento da cultura de matriz africana já deram declarações das mais controversas, desde a minimização dos efeitos do racismo na sociedade até a associação do rock’n’roll com a “indústria do aborto”, seja lá o que isso significa.

Desde o início de 2019, a Agência Nacional de Cinema (Ancine), principal fonte de fomento de produções audiovisuais no país, passou a ser usada como instrumento de censura moral, da suspensão de investimento em filmes com temática LGBTQ+ à retirada das paredes do prédio de cartazes de consagradas obras nacionais, como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964, Glauber Rocha) e Cabra Marcado para Morrer (1984, Eduardo Coutinho). O ápice do absurdo aconteceu em janeiro deste ano, quando o então secretário nacional da cultura, Roberto Alvim, fez um discurso sobre a arte brasileira emulando o ministro da Propaganda nazista de Adolf Hitler, Joseph Goebbels.

Assim, com uma sociedade polarizada, governada por um estado tresloucado, aquele que já foi “O País do Futuro” parece estar sem perspectivas. Mas é chegado o momento da construção de uma nova identidade. Dentre as tantas narrativas em disputa vencerão aquelas com maior poder aglutinador. Bacurau oferece caminhos: resgate de símbolos da tradição popular, recuperação histórica de um passado de resistência, retomada do senso de coletividade. O Brasil, com seus muitos brasis, olha para seu reflexo fragmentado e não se reconhece mais. Nesse espelho borrado pelo presente, a imagem que se formará só a História vai dizer.

Bibliografia
BOTELHO, André; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Introdução. Um país de muitas faces. In: Agenda Brasileira. Temas de uma sociedade em mudança. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

XAVIER, Ismail. Cinema brasileiro contemporâneo: pensar a conjuntura e viver impasses na sociedade do espetáculo. In: Agenda Brasileira. Temas de uma sociedade em mudança. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

OLIVEN, Ruben George. Identidade nacional: construindo a brasilidade. In: Agenda Brasileira. Temas de uma sociedade em mudança. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, M. Heloísa. Introdução ou “O Brasil fica bem perto daqui”. In: Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Mulher, brasileira, latino-americana; Jornalista responsa, com forte em combinar qualidade e criatividade; Amante de animais, natureza, música e boteco.

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